textimagens - rosaura soligo

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

pobres ruas

apu gomes

Pobres ruas, sempre no seu dorso o peso
dos corpos, das rodas,
dos líquidos, chorumes
risadas, queixumes.
Dos mortos ainda vivos, dos vivos já quase mortos
Os rumos, as rotas, os passos.
Humanos, desumanizados
Desgraçados, abastados
Doutores, ambulantes
Surfistas errantes.
Pobres ruas, braços das paradas dos ônibus
Paradas que, sempre em movimento,
mastigam tormentos, vomitam histórias ou assuntos repisados.
Pobres ruas condenadas a viver fora do abrigo
Dando abrigo ao inimigo, à poeira e ao veneno excretado pelas máquinas 
que ferozes as devoram mesmo sem as engolir.
Pobres ruas mães insones, não conseguem repousar
E ficam sempre acordadas, não porque os filhos demorem, mas porque os vê chegar.
Prostitutas, viciados, franciscanos, exilados.
Bandidos, ladrões, alijados de afeto e de calor,
de esperança e de respeito, e não têm outro jeito que não, o de na rua amar,
a tudo que é desprezado, que é torto que é jogado, no solo, na boca da rua,
que é veia, que é rio, que é viva e alimenta,
o pesadelo ou o sonho de viver e de lutar.
Não importa o que escoem, há sempre um preço a pagar.
Pobres ruas projetadas pra viverem abertas aos céus
Que se fazem passarelas das estrelas e do brilho que a lua faz deitar
em seus cantos, becos, prantos que nelas vem se abrigar.
Pobres ruas, colo da chuva banhado pela enxurrada,
no final da madrugada sonham de lado virar
e se entregar ao repouso, sem gritos, sem latejar.
Mas vem o sol lhes bater, e recomeça a história que elas têm de escrever
História de muitas vozes
Que não podemos ouvir
Que não conseguimos ler.
[Vilma de Lourdes Campos]

apu gomes

2 comentários:

  1. Rosaura! O texto encontrou abrigo perfeito nestas imagens. Muito fortes e emblemáticas!

    ResponderExcluir