textimagens - rosaura soligo

sexta-feira, 27 de abril de 2012

sábado, 21 de abril de 2012

apenas desejos

leonardo soares

Abre-se o livro e o reino é distante de tudo que conhecemos. Não há um feito heroico apenas, pois todos lutam a seu modo para sobreviver. O rei existe e é tirano. As ruas cheiram ouro em barras e pepitas, pois são feitas de imaginação. Quando os sóis nascem todos os dias, é hora de regarimpar. As pessoas não conversam muito e se entendem só de olhar. Lá os dragões bebem sangue, suor, lágrimas e toda a cachaça que houver. As pedras no caminho são exatamente isso: pedras quase insuperáveis no caminho. Ali é proibido sentir aquela saudade que torce o coração, pois ninguém aguenta saber a dor que isso carrega. A solidão só é cultivada sozinha, não se divide nem com a sombra. No final do arco íris tem sim um pote de ouro, mas ninguém jamais alcançou, a não ser o rei. Nas noites intermináveis, o sonho é de tudo que não é ali. Nesse livro não há números nem páginas, apenas desejos.

[decalque de Rosaura Soligo a partir do original, de Paty Yumi,
publicado em http://poisalgumlugar.wordpress.com/2012/04/21/livresco/]

sábado, 14 de abril de 2012

cidade invadida

leonardo soares [texto e imagem]



e ele calado, pensativo em alguma invenção, em alguma magia, mesmo que fosse a mesma que fazia o céu escurecer de repente e as águas caírem com braveza. imaginava o movimento da roça chegar na cidade e fazer do centro comercial o meio do mato. cada rua, rio. cada travessa, afluente. o beco mais esquecido, afluente do afluente. ou do ribeirão, serpenteando feito cobra coral. e do mercado central um brejo. e no seu jeito de imaginar, trocava o zunido metálico do fechar de porta das lojas pelo barulho dos bichos que cantavam com mais força no entardecer, quando a claridade minguava e a noite, de pouco em pouco, de par em par, tomando o espaço do dia, tingia tudo com um azul quase triste. mas achava que era só sonho de sonhador, sonho sonhado que nunca seria de verdade.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

era tão bom o meu menino

Fazia três dias que a nuvem negra rodeava e escurecia o horizonte detrás da torre da Católica e não chovia no chão de terra vermelha de Conceição, as estradas poeirentas, os pastos amarelados careciam da água que tardava cair do céu.
Dona Selonita, professora aposentada, anotava o leite que chegava das roças, Pendura Saia e Mexirico. Conhecia todos os funcionários da empresa da família: transporte, amarzenamento de leite e criação de vaca leiteira. Distinguia as mazelas, investigava as perdas de cada um, pobre diabo, a dor dos desgraçados, cachaceiros assalariados. Neide Patanga e os filhos trancafiados na cela escura da cadeia de Mutum. Matutava, especulava o sofrimento dos outros, fantasiava, a garoa molhava o chão e a plantação, não existia dor maior no mundo do que enterrar o filho.
Tia Nita, conhecia  os moradores da cidade: o padre e o pastor, o soldado. Percorria o passeio ensolarado nas tardes quase noites de culto na Batista, assuntava com um e outro, chegava à imaginação histórias de dolorosos desfechos: o moço que de droga perdeu o juízo, a mãe que renegou o filho primeiro, a fome assombrando o sono dos meninos do morro de areia, a finada família da curva do rio. Andava a cata de tristes dissabores, investigava mas não percebia dor mais doída que a dor da perda do filho e do neto.
O filho do filho a cento e quarenta por hora, acelerou o coração, alargou a tristeza, reavivou sofrimento de cicatriz antiga diluída em tempo da avó, na mesma estrada, Manhuaçu-Ipanema, três anos depois, a pista molhada e escorregadia em dia de fina garoa, a música fúnebre no alto falante da Igreja, a morte anunciada passando na frente do bar do Gordo, cortejo fúnebre, o corpo enterrado junto do corpo do pai, o filho e o neto.
Dona Selonita. Rosto enlutado, velou o neto tal qual o filho, agradeceu aos que “vieram aqui hoje”, pediu orações a família. Marido, pai e avô, tio Delei, reclama a falta de sorte, reclama a carência de lágrima: “já chorei demais, parece que a lágrima acabou, secou, não consigo mais chorar”. Tia Nita, vigilante ao lado caixão, às vezes espantando as moscas que zuniam sobre o corpo, enxugava as lágrimas que chorava no rosto do filho, insone lamentava a sorte do neto mais novo, soluçando a dor mais doída do mundo abraçado ao irmão, o peito maior que a cidade, arruinado, quatro mil habitantes, salão de bilhar solitário, urubu voando no escuro do meio dia, mirando a pastagem árida, espreitando carcaça de animal em tempo de seca. A voz soando quase sem coragem, quase sem som, penalizada: “era tão bom o meu menino, por quê?”.
Recebeu a visita dos pastores da cidade, três, um por dia, parecia orquestrado o horário da visitação. Rezaram, pediram a Deus, suplicaram, ganharam as lágrimas da tia Nita, em pé no alpendre fechava os olhos para a chuva caindo preguiçosa, indiferente, o céu cinza, remexeram, reviraram as cicatrizes, o filho e o neto, elevaram a dor, ferida na alma, troféu sem cor, medalha desbotada, o tempo custava passar, “em nome de Jesus e amém”.[leonardo soares]













leonardo soares