textimagens - rosaura soligo
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
disilimina
![]() |
leonardo soares |
Quando a Vó me recebeu nas férias, ela me apresentou aos amigos. Este é meu neto. Ele foi estudar no Rio e voltou de ateu. Ela disse que eu voltei de ateu. Aquela preposição deslocada me fantasiava de ateu. Como quem dissesse no Carnaval: aquele menino está fantasiado de palhaço. Minha avó entendia de regências verbais. Ela falava de sério. Mas todo-mundo riu. Porque aquela preposição deslocada podia fazer de uma informação um chiste. E fez. E mais: eu acho que buscar a beleza nas palavras é uma solenidade de amor. E pode ser instrumento de rir. De outra feita, no meio da pelada um menino gritou: Disilimina esse, Cabeludinho. Eu não disiliminei ninguém. Mas aquele verbo novo trouxe um perfume de poesia à nossa quadra. Aprendi nessas férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com elas. Comecei a não gostar de palavra engavetada. Aquela que não pode mudar de lugar. Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam. Por depois ouvi um vaqueiro a cantar com saudade: Ai morena, não me escreve/que eu não sei a ler. Aquele a preposto ao verbo ler, ao meu ouvir, ampliava a solidão do vaqueiro. [Manoel de Barros]
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
cidade tragada
olhos noturnos miram o nem ver, guiam os passos mal desenhados por caminhos escuros, entre becos e vielas brilha o vestido vermelho da prostituta, o rosto insone, boca pintada de cor igual, olhar embriagado do último boêmio da cidade mergulhada na penumbra da madrugada fria e gelada, garoa cinza alarga a solidão, selva de concreto imersa em caos.
olha de viés procura disco voador no céu escondido do inverno, saci fantasiado de gente, girando redemoinho de vento de chuva, infinito iluminado de luz do sol que insiste em clarear o rosto sujo do mendigo que ninguém vê, amanhecido no passeio de passos apressados, invisível assombração dobrando a encruzilhada, ventando a saia rodada da mulher do guarda.
o boteco irradia luz, Fagner na vitrola, reluz, sobressai, cativa o passante.
adentra o salão, achega ao balcão quase negro, monótono tristonho, recanto sem luz, procura na prateleira a garrafa de invisível, a dose de disco voador, o trago ensacizado, o brinde assombrado, cachaça balança saia, beijo na boca bêbada vermelha da puta gostosa do centro da cidade. [leonardo soares]
![]() |
leonardo soares |
terça-feira, 25 de outubro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
ao jeito que namorasse
![]() |
leonardo soares |
falava com as árvores e com as águas
ao jeito que namorasse.
todos os dias ele arrumava as tardes
para os lírios dormirem.
usava um velho regador para molhar todas as manhãs
os rios e as árvores da beira.
dizia que era abençoado pelas rãs e pelos pássaros.
a gente acreditava por alto.
assistira certa vez um caracol vegetar-se na pedra.
mas não levou susto.
... era muito encontrável isso naquele tempo.
até pedra criava rabo!
a natureza era inocente.
[Manoel de Barros]
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
domingo, 2 de outubro de 2011
Assinar:
Postagens (Atom)