textimagens - rosaura soligo

sábado, 14 de abril de 2012

cidade invadida

leonardo soares [texto e imagem]



e ele calado, pensativo em alguma invenção, em alguma magia, mesmo que fosse a mesma que fazia o céu escurecer de repente e as águas caírem com braveza. imaginava o movimento da roça chegar na cidade e fazer do centro comercial o meio do mato. cada rua, rio. cada travessa, afluente. o beco mais esquecido, afluente do afluente. ou do ribeirão, serpenteando feito cobra coral. e do mercado central um brejo. e no seu jeito de imaginar, trocava o zunido metálico do fechar de porta das lojas pelo barulho dos bichos que cantavam com mais força no entardecer, quando a claridade minguava e a noite, de pouco em pouco, de par em par, tomando o espaço do dia, tingia tudo com um azul quase triste. mas achava que era só sonho de sonhador, sonho sonhado que nunca seria de verdade.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

era tão bom o meu menino

Fazia três dias que a nuvem negra rodeava e escurecia o horizonte detrás da torre da Católica e não chovia no chão de terra vermelha de Conceição, as estradas poeirentas, os pastos amarelados careciam da água que tardava cair do céu.
Dona Selonita, professora aposentada, anotava o leite que chegava das roças, Pendura Saia e Mexirico. Conhecia todos os funcionários da empresa da família: transporte, amarzenamento de leite e criação de vaca leiteira. Distinguia as mazelas, investigava as perdas de cada um, pobre diabo, a dor dos desgraçados, cachaceiros assalariados. Neide Patanga e os filhos trancafiados na cela escura da cadeia de Mutum. Matutava, especulava o sofrimento dos outros, fantasiava, a garoa molhava o chão e a plantação, não existia dor maior no mundo do que enterrar o filho.
Tia Nita, conhecia  os moradores da cidade: o padre e o pastor, o soldado. Percorria o passeio ensolarado nas tardes quase noites de culto na Batista, assuntava com um e outro, chegava à imaginação histórias de dolorosos desfechos: o moço que de droga perdeu o juízo, a mãe que renegou o filho primeiro, a fome assombrando o sono dos meninos do morro de areia, a finada família da curva do rio. Andava a cata de tristes dissabores, investigava mas não percebia dor mais doída que a dor da perda do filho e do neto.
O filho do filho a cento e quarenta por hora, acelerou o coração, alargou a tristeza, reavivou sofrimento de cicatriz antiga diluída em tempo da avó, na mesma estrada, Manhuaçu-Ipanema, três anos depois, a pista molhada e escorregadia em dia de fina garoa, a música fúnebre no alto falante da Igreja, a morte anunciada passando na frente do bar do Gordo, cortejo fúnebre, o corpo enterrado junto do corpo do pai, o filho e o neto.
Dona Selonita. Rosto enlutado, velou o neto tal qual o filho, agradeceu aos que “vieram aqui hoje”, pediu orações a família. Marido, pai e avô, tio Delei, reclama a falta de sorte, reclama a carência de lágrima: “já chorei demais, parece que a lágrima acabou, secou, não consigo mais chorar”. Tia Nita, vigilante ao lado caixão, às vezes espantando as moscas que zuniam sobre o corpo, enxugava as lágrimas que chorava no rosto do filho, insone lamentava a sorte do neto mais novo, soluçando a dor mais doída do mundo abraçado ao irmão, o peito maior que a cidade, arruinado, quatro mil habitantes, salão de bilhar solitário, urubu voando no escuro do meio dia, mirando a pastagem árida, espreitando carcaça de animal em tempo de seca. A voz soando quase sem coragem, quase sem som, penalizada: “era tão bom o meu menino, por quê?”.
Recebeu a visita dos pastores da cidade, três, um por dia, parecia orquestrado o horário da visitação. Rezaram, pediram a Deus, suplicaram, ganharam as lágrimas da tia Nita, em pé no alpendre fechava os olhos para a chuva caindo preguiçosa, indiferente, o céu cinza, remexeram, reviraram as cicatrizes, o filho e o neto, elevaram a dor, ferida na alma, troféu sem cor, medalha desbotada, o tempo custava passar, “em nome de Jesus e amém”.[leonardo soares]













leonardo soares

quarta-feira, 4 de abril de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

com licença, meu poeta

leonardo soares
Uso o silêncio para compor minhas palavras.
Não gosto de silêncios
desesperados para acontecer,
dou mais respeito
aos silêncios respeitados
que vivem nus pela vida
tipo filhote pedra rio.
Mais ou menos entendo o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo atos mais que palavras.
Prezo a velocidade
das memórias acontecidas mais que a dos planos.
Tenho em mim esse atraso de presença.
Eu fui crescida
para voar como passarinho.
Tenho abundância de esperançar por isso.
O mundo que mora em mim é quase maior do que o mundo todo.
Coleciono momentos e (sem querer) desperdícios:
Migalhas de ser feliz também muito me interessam.
Queria que a minha voz tivesse poder de criar vida.
Porque eu não sou da espera:
Eu sou da esperança.
Só uso mesmo a palavra para compor meus atos.
[decalque do Apanhador de desperdícios, de Manoel de Barros, feito por Rosaura]                                         http://www.entreculturas.com.br/2010/10/manoel-de-barros-o-apanhador-de-desperdicios/ e http://www.fmb.org.br/index.php?idp=4

de quê?

leonardo soares










você tem
sede de quê?
você tem

fome de quê?

domingo, 4 de março de 2012

é?!


tudo é uma questão de manter
a mente quieta,
a espinha ereta
e o coração tranqüilo.
[Walter Franco]